domingo, 10 de novembro de 2019

A humanidade de Jesus Cristo



Nos círculos teológicos ao longo dos séculos há um considerável debate sobre se o corpo do Senhor era idêntico ao nosso ou apenas semelhante. Argumenta-se que, se seu corpo era apenas semelhante, então Ele não era um verdadeiro representante do homem. Contra esse argumento, pode-se dizer, por contraste, que nós mesmos, em nosso presente estado caído, não somos verdadeiramente homens, e que o homem verdadeiro deve ser encontrado apenas em Adão antes dele cair. Como a Queda causou danos irreparáveis ​​e fatais ao seu corpo, um dano compartilhado por todos os seus descendentes natos, então qualquer ser humano que possua um corpo como o que temos agora não é um verdadeiro representante da humanidade como originalmente constituído por Deus.


A questão da encarnação e da humanidade de Cristo é um ponto ABSOLUTAMENTE SINE QUA NON para a determinação de que se o cristianismo que é crido e praticado é aceito ou verdadeiro.

A Cristologia e, em especial essa questão, é a pedra de toque de TODA a doutrina cristã. Se ela não é bíblica, ou seja, não está de acordo com as Escrituras, então não é sadia ou autêntica, e o que se crê e pratica é, nada mais nada menos, que uma forma de engano ou falsificação, uma heresia, uma corrupção do Evangelho...como por exemplo o apolinarismo, o nestorianismo, o monofisismo, o docetismo e, especialmente, o arianismo.

Romanos 8:3 declara de maneira muito específica que Deus enviou seu Filho somente "à semelhança da carne pecaminosa", mas não de fato na carne do pecado que é nossa desde a Queda. O grego é inequívoco, diz: en homoiomati sarkos hamartias. A palavra crucial aqui é homoiomati, que significa muito precisamente "semelhante a" mas não "idêntico a". A primeira parte desta palavra é homoi- que deve ser cuidadosamente distinguida de homo-.

A diferença reside apenas na letra i (iota em grego) que embora aparentemente leve, faz toda a diferença do mundo.

O verbo homoioo é regularmente usado para introduzir parábolas, por exemplo, "o reino dos céus é semelhante a..."

Aqui Paulo está enfatizando que Cristo era realmente homem. Ele carregava um corpo físico, moldado de acordo com o corpo humano que está infectado pelo pecado. Na forma externa Ele não era de forma nenhuma diferente de outros homens. Mas Paulo não diz que ele veio em sarki hamartias [ie, Ele não veio em carne pecaminosa, mas apenas à semelhança da carne pecaminosa]. Com suas palavras en homoiomati, Paulo está mostrando que, apesar de toda a semelhança entre o corpo físico de Cristo e o dos outros homens, há uma diferença essencial entre Cristo e os homens...Ele se tornou homem sem entrar no nexo [o fluxo real] do pecado humano.

A distinção entre as palavras prefixados por homo e homoi  é universalmente reconhecida pelos estudiosos, e tomando nota cuidadosa desses usos distintos no Novo Testamento, muitas verdades maravilhosas tornam-se aparentes. Por exemplo, que o Senhor foi tentado em todos os pontos como nós somos, significa (de acordo com o grego) "de maneira semelhante", mas não "de maneira idêntica" (Hebreus 4:15). O Senhor "foi feito à semelhança dos homens", mas não idêntico a nós como criaturas caídas (Filipenses 2:7). Nós fomos "plantados juntos na imensidão de sua morte", mas obviamente não exatamente da mesma maneira (Romanos 6:5). Neste verso "a imagem (ou semelhança) de sua morte é como seu objeto mas não equivalente (é algo semelhante em outra forma). Novamente, "convinha que ele fosse feito semelhante a seus irmãos em todas as coisas, para que ele fosse um sumo sacerdote misericordioso e fiel" (Hebreus 2:17), mas manifestamente não deve ser feito exatamente como seus irmãos são, pois senão Ele nunca poderia ter se tornado nosso Sumo Sacerdote na presença de Deus.

Estudantes da História da Igreja reconhecem a importância da distinção entre as palavras homo-ousias (da mesma substância) e homoi-ousias (de substância semelhante) na formulação do Credo Niceno (325 a 374). A Igreja Oriental favoreceu a visão de que o Senhor Jesus era apenas de substância semelhante com o Pai, enquanto a Igreja Ocidental mantinha a opinião de que Ele era da mesma substância ("de uma substância") com o Pai. O resultado foi uma ruptura final entre os ramos oriental e ocidental da Igreja, que permanece oficialmente até hoje. Essa divisão fundamental era mais do que uma diferença entre homo e homoi. No entanto, esse IOTA foi crucial para a preservação da fé cristã! É interessante que o Senhor tenha dito "nem um jota (o iota grego)...passará da lei até que tudo seja cumprido" (Mateus 5:18).

Dessa maneira, no tocante a provar a fé dos líderes cristãos, homo-ousias se tornou o teste crucial da ortodoxia e foi feita a "palavra de ordem" como um baluarte no Credo Niceno contra o arianismo favorecido pela Igreja Oriental na época.
 
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Textos bíblicos citados:

Hebreus 4:15: "Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado."

Filipenses 2:7: "Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens."

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