Nos
círculos teológicos ao longo dos
séculos há um considerável debate sobre se o corpo do Senhor era idêntico
ao nosso ou apenas semelhante.
Argumenta-se que, se seu corpo era apenas semelhante, então Ele não era um
verdadeiro representante do homem. Contra esse argumento, pode-se dizer,
por contraste, que nós mesmos, em nosso presente estado caído, não somos verdadeiramente homens, e que o
homem verdadeiro deve ser encontrado apenas em Adão antes dele cair. Como a
Queda causou danos irreparáveis e fatais ao seu corpo, um dano compartilhado
por todos os seus descendentes natos, então qualquer ser humano que possua um
corpo como o que temos agora não é um verdadeiro representante da
humanidade como originalmente
constituído por Deus.
A
questão da encarnação e da humanidade de Cristo é um ponto ABSOLUTAMENTE SINE
QUA NON para a determinação de que se o cristianismo que é crido e praticado é
aceito ou verdadeiro.
A
Cristologia e, em especial essa questão, é a pedra de toque de TODA a doutrina
cristã. Se ela não é bíblica, ou seja, não está de acordo com as Escrituras,
então não é sadia ou autêntica, e o que se crê e pratica é, nada mais nada
menos, que uma forma de engano ou falsificação, uma heresia, uma corrupção do
Evangelho...como por exemplo o apolinarismo, o nestorianismo, o monofisismo, o
docetismo e, especialmente, o arianismo.
Romanos
8:3 declara de maneira muito específica que Deus enviou seu Filho somente "à semelhança da carne
pecaminosa", mas não de fato na carne do pecado que é nossa desde a Queda.
O grego é inequívoco, diz: en homoiomati
sarkos hamartias. A palavra crucial aqui é homoiomati,
que significa muito precisamente "semelhante a" mas não
"idêntico a". A primeira parte desta palavra é homoi- que deve
ser cuidadosamente distinguida de homo-.
A
diferença reside apenas na letra i (iota em
grego) que embora aparentemente leve, faz toda a diferença do mundo.
O
verbo homoioo é
regularmente usado para introduzir parábolas, por exemplo, "o reino dos
céus é semelhante a..."
Aqui Paulo
está enfatizando que Cristo era realmente homem. Ele carregava um corpo físico, moldado
de acordo com o corpo humano que está infectado pelo pecado. Na forma
externa Ele não era de forma nenhuma diferente de outros homens. Mas Paulo
não diz que ele veio em sarki hamartias
[ie, Ele não veio em carne pecaminosa, mas apenas à semelhança da carne pecaminosa]. Com suas palavras en homoiomati, Paulo está mostrando que, apesar de
toda a semelhança entre o corpo físico de Cristo e o dos outros homens, há uma
diferença essencial entre Cristo e os homens...Ele se tornou homem sem entrar
no nexo [o fluxo real] do pecado humano.
A
distinção entre as palavras prefixados por homo
e homoi é universalmente reconhecida
pelos estudiosos, e tomando nota cuidadosa desses usos distintos no Novo
Testamento, muitas verdades maravilhosas tornam-se aparentes. Por exemplo,
que o Senhor foi tentado em todos os pontos como nós somos, significa (de acordo com o grego) "de maneira semelhante", mas não
"de maneira idêntica"
(Hebreus 4:15). O Senhor "foi feito à semelhança dos
homens", mas não idêntico a nós como
criaturas caídas (Filipenses 2:7). Nós fomos "plantados juntos
na imensidão de sua morte", mas obviamente não exatamente da
mesma maneira (Romanos 6:5). Neste verso "a imagem (ou semelhança) de sua
morte é como seu objeto mas
não equivalente (é algo semelhante em outra forma). Novamente,
"convinha que ele fosse feito semelhante a
seus irmãos em todas as coisas, para que ele fosse um sumo sacerdote
misericordioso e fiel" (Hebreus 2:17), mas manifestamente não deve ser
feito exatamente como seus irmãos são, pois senão Ele nunca poderia ter se
tornado nosso Sumo Sacerdote na presença de Deus.
Estudantes
da História da Igreja reconhecem a importância da distinção entre as
palavras homo-ousias (da mesma substância)
e homoi-ousias (de substância semelhante)
na formulação do Credo Niceno (325 a 374). A Igreja Oriental favoreceu a visão
de que o Senhor Jesus era apenas de substância semelhante com
o Pai, enquanto a Igreja Ocidental mantinha a opinião de que Ele era da mesma substância
("de uma substância") com o Pai. O resultado foi uma ruptura final entre os ramos oriental e ocidental
da Igreja, que permanece oficialmente até hoje. Essa divisão
fundamental era mais do que uma diferença entre homo e homoi.
No entanto, esse IOTA foi crucial para a preservação da fé
cristã! É interessante que o Senhor tenha dito "nem um jota (o iota
grego)...passará da lei até que tudo seja cumprido" (Mateus 5:18).
Dessa
maneira, no tocante a provar a fé dos líderes cristãos, homo-ousias se tornou o teste crucial da ortodoxia e foi feita a
"palavra de ordem" como um baluarte no Credo Niceno contra o
arianismo favorecido pela Igreja Oriental na época.
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Textos bíblicos citados:
- Hebreus 4:15: "Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado."
- Filipenses 2:7: "Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens."
Nenhum comentário:
Postar um comentário